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    Liga Acadêmica de Odontologia Legal - UFPB

    DNA EM ODONTOLOGIA LEGAL

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        Um viking. Um naufrágio. Um tsunami. Um queijo.  O que tudo isso tem a ver com o DNA em Odontologia Legal? Continua essa leitura que você vai entender.

        Sabemos que os cinco princípios básicos exigidos para qualquer sistema ou procedimento identificatório são: unicidade, imutabilidade, perenidade, praticabilidade e classificabilidade. Assim sendo, as impressões digitais e a dentição são largamente utilizadas no processo de identificação, desde que haja registros prévios dessas características. Há ainda a preocupação com o corpo que se encontra em um estágio avançado de decomposição ou em casos de desastres em massa, o que dificulta ainda mais o processo identificatório. O que acontece quando não é possível utilizar os métodos supracitados? O DNA entra em cena!

        A molécula de DNA apresenta características únicas para cada indivíduo, com exceção dos gêmeos idênticos. A análise do DNA é considerada um processo de identificação comparativo, pois os exames forenses de DNA consistem em testes comparativos do perfil genético do periciando (pessoa que está passando por uma perícia) com seus familiares ou com objetos de uso pessoal do próprio indivíduo. Desta forma, o processo de identificação é possibilitado mesmo diante da inexistência de documentos anteriores, tendo em vista a disponibilidade de famílias inteiras que podem oferecer material de referência.

      Uma das vantagens encontradas na molécula de DNA é que seus polimorfismos (diferenças entre os indivíduos), que são características herdadas, não mudam ao longo do tempo, ou seja, são idênticos durante toda a vida. A velocidade da realização dos exames também se configura como uma vantagem, principalmente em desastres em massa. É válido salientar que o DNA é mais um exame, não uma sentença, sendo a análise forense do DNA um elemento a se somar ao processo investigativo.


       Você pode estar se perguntando: “Mas cadê a odontologia em tudo isso?”. Pois bem, o elemento dentário representa a estrutura mais resistente do corpo, sendo, portanto, encontrado com maior frequência para fins identificatórios. As estruturas dentárias (esmalte, cemento, dentina e osso alveolar) apresentam uma dureza que propicia condições para a preservação e integridade do DNA, apesar das adversidades do meio, como variações de temperatura e pH. Logo, o DNA da polpa dental é de extrema importância em processos de identificação, especialmente quando outros métodos não são considerados viáveis ou até mesmo quando os tecidos moles do corpo não são capazes de oferecer a amostra, entendeu?

      O genoma corresponde ao conjunto de toda a informação genética de um indivíduo, estando localizado no núcleo (DNA nuclear) e na organela citoplasmática conhecida como mitocôndria (DNA mitocondrial). A mitocôndria, por ser responsável pela gênese de energia, necessita de DNA próprio capaz de suprir-lhe. Haverá casos em que a análise do DNA nuclear não poderá ser aplicada, sendo a única alternativa, ou pelo menos a de maior sucesso, a análise do DNA mitocondrial. Apesar do DNA mitocondrial apresentar herança exclusivamente materna, permite identificações através de gerações distantes na linha materna. Desta forma, por mais que o DNA nuclear apresente herança paterna e materna, apenas permite identificações através de gerações próximas. Uma outra vantagem a ser mencionada do DNA mitocondrial é sua abundância em restos humanos, visto que restos de esqueletos antigos podem dar boas sequências informativas de DNA mitocondrial.


        Os vikings. Chegou a hora de falarmos sobre eles. Chegou a hora de vermos como o DNA mitocondrial mudou sua história. Curioso(a)? Então vamos lá... Os historiadores acreditavam que o corpo do último rei viking Sven Estridsen havia sido depositado ao lado do de sua mãe Estrid em 1074. Contudo, de acordo com a revista inglesa New Scientist, através de análise da polpa de molares extraídos dos esqueletos (testes de amostras de DNA mitocondrial), chegou-se à conclusão de que os corpos não eram de mãe e filho. O desenvolvimento dos dentes e ossos ainda sugerem que a mulher enterrada morreu com aproximadamente 35 anos, enquanto a história registra que Estrid faleceu aos 75 anos.

        Também chegou a hora de falarmos sobre o naufrágio. Pela imagem acima você já deve saber que estou falando do Titanic. Através do projeto Titanic Ancient DNA iniciado em 1998, uma criança, até então conhecida como ‘Unknown Child’, pode finalmente ser identificada. Para identificação haviam disponíveis um pequeno fragmento de osso e três dentes. Ocorreu a suspeita de que o corpo pertenceria a Gosta Leonard Palsson, logo descartada em virtude da análise do DNA mitocondrial presente no fragmento ósseo. Então partiu-se para a análise dos dentes. Depois de muitas pesquisas, descobriu-se que Sidney Leslie Goodwin de 19 meses, e Eino Viljam Panula, de 13 meses, tinham a mesma descendência materna de cerca de 2000 anos atrás (!!!!!!), por isso, das amostras previamente coletadas, o DNA mitocondrial das amostras das duas famílias foram idênticas. Mas calma que o caso não ficou sem solução! O grau de desenvolvimento e maturação dos dentes concluiu que a ‘Unknown Child’ era Eino Viljam Panula.

        Os métodos para exame do DNA consistem na identificação dos polimorfismos, podendo levar em consideração variações nos comprimentos dos segmentos (detecção dos RFLP) ou variações nas sequências de bases específicas (PCR – AmpFLP). O tamanho dos segmentos varia bastante entre os indivíduos em decorrência do número variável de repetições em sequência.  A sequência de bases oferece informações sobre o DNA com base na comparação de sequência de fragmentos de DNA de tamanhos semelhantes. Então, como escolher qual método aplicar?

       Se a intenção for testar se uma amostra biológica pertence ao suspeito ou a vítima, qualquer um dos métodos oferecerá informações úteis e suficientes. Entretanto, existirá casos em que o método escolhido dependerá da qualidade e quantidade de DNA extraído da amostra. Se a amostra for superior a 50 nanogramas de DNA de alto peso molecular, deverá ser realizado o teste de RFLP. Se o DNA estiver bastante degradado, deverá ser realizado o teste AmpFLP.

        Ainda dentro deste assunto, não posso deixar de falar sobre os marcadores STR. O STR corresponde a regiões hipervariáveis do DNA constituídas de repetições consecutivas de fragmentos. Este é o marcador de escolha na maioria dos exames genéticos em procedimentos identificatórios, em virtude do alto poder de individualização considerando o alto grau de polimorfismo, a abundância no genoma e a praticabilidade laboratorial. Vale salientar que a caracterização dos marcadores genéticos é de extrema importância para avaliar o polimorfismo em populações diferentes, encontrando, portanto, dados úteis para aplicação forense. 

        Depois de conhecer (ou relembrar) os métodos de análise do DNA, você deve estar se perguntando: “Tá, mas como é que faz para coletar o material para fazer a análise?” Ok, vamos por partes. O DNA pode ser extraído de uma diversidade de materiais biológicos, como amostras de sangue, saliva, osso, dente, tecidos e órgãos, fios de cabelo, sêmen, dentre outros. Mas como estamos falando sobre o DNA na Odontologia Legal, abordarei apenas o DNA extraído de tecidos e estruturas orais e da saliva.

        O DNA poderá ser extraído dos tecidos moles da boca, como, por exemplo, da gengiva e da língua. Contudo, haverá casos em que essas estruturas, assim como qualquer outro tecido mole, não estarão disponíveis, sendo necessário a utilização do elemento dentário. O DNA presente na polpa dentária é conservado em virtude da dureza do elemento dentário e resistência do mesmo frente a diversas circunstâncias. Mas como realizar a extração do DNA da polpa dentária? Eu imagino que o seu primeiro pensamento foi destruir o elemento dentário para facilitar o processo.

       É sempre necessário um planejamento para decidir a melhor maneira de acessar este DNA, tendo como primeira hipótese uma abordagem exclusivamente conservadora e, EM SEGUNDO CASO, deve-se considerar uma técnica mais “agressiva”. Por quê? Acho que você já sabe a resposta! Porque os elementos dentários são extremamente úteis na Odontologia Legal viabilizando processos de identificação, por isso não devem ser destruídos arbitrariamente.

       O tsunami que ocorreu na Ásia Oriental em 2004 dificultou bastante a identificação das vítimas. A extração de DNA dos corpos das vítimas era praticamente inviável, tendo em vista que tais corpos encontravam-se degradados e com material provavelmente contaminado. A coleta de impressões digitais também era bastante difícil. Desta forma, optou-se, dentre outras medidas, pela extração de dois elementos dentários, de preferência pré-molares, para a análise de DNA. Um maior número de elementos disponíveis sempre consiste em maiores chances de se obter um DNA apto para o exame. Ademais, os molares normalmente são as peças de escolha, pois, além de estarem mais bem protegidos em decorrência da sua posição, apresentam as maiores câmaras pulpares.

        E o DNA salivar? A saliva humana é uma importante fonte de DNA para uso forense, sendo normalmente encontrada em elementos presentes no local do crime, como uma bituca de cigarro por exemplo, ou mordeduras presentes na vítima (ou elementos mordidos, mas em breve falarei mais sobre isso). O DNA isolado da saliva recuperada de materiais no local do crime pode ser analisado, a fim de se comparar com amostras colhidas de possíveis suspeitos.  

        Talvez, em algum lugar do seu cérebro, você foi conferindo se eu falei sobre tudo que citei lá no início. Viking: CHECK! Naufrágio: CHECK! Tsunami: CHECK! Mas e o queijo? Ok, se você chegou até aqui pelo queijo, então é o queijo que você terá.

        Imagine-se em uma cena do crime. Você encontrou um pedaço de queijo com uma marca de mordida (by the way, lê o texto sobre marca de mordida aqui do blog que tá incrível!). O que você faz? Exato, pensa que naquela mordida tem saliva e que naquela saliva tem o DNA de um potencial suspeito. Pois bem, os peritos também pensaram assim. Recolheram o pedaço de queijo, congelaram para preservar as características da marca de mordida e da saliva e aplicaram a técnica do cotonete duplo para coletar amostras de DNA. Coletaram uma amostra do sangue do suspeito. Então, utilizando a técnica PCR em dez STR loci, conclui-se que o DNA do queijo se originou do suspeito.

      Com relação a coleta das provas, é de extrema importância a presença de um odontolegista, pois, elementos que, por vezes, são interessantes ao mesmo, podem não ser para profissionais que não são da área. Estes elementos podem ser questões cruciais para o manuseio das provas. O objetivo sempre deverá ser que eventuais fontes de contaminação sejam evitadas e que todo o possível seja feito para que o DNA seja conservado o mais intacto possível, em decorrência de condições ambientais que podem ser evitadas. 

    Tifany Shela Albuquerque Borba de Andrade


    REFERÊNCIAS

    Daruge E, Daruge Júnior E, Francesquini Júnior L. (2016). Tratado de Odontologia Legal e Deontologia. [Minha Biblioteca]. Retirada de: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788527730655/ 

    Vanrell JP (2019). Odontologia Legal e Antropologia Forense, 3ª edição. [Minha Biblioteca]. Retirado de: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788527735223/ 

    Bajaj A. Disaster victim identification: Tsunami. Br Dent J. 2005 Apr 23;198(8):504-5. doi: 10.1038/sj.bdj.4812255. PMID: 15849590. 

    Sweet D, Hildebrand D. Saliva from cheese bite yields DNA profile of burglar: a case report. Int J Legal Med. 1999;112(3):201-3. doi: 10.1007/s004140050234. PMID: 10335888. 

    Silveira EMSZSF. Forensic dentistry: the importance of DNA to the examination by the experts. Saúde, Ética & Justiça. 2006;11(1/2):12-8.

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    Memento mori

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    Amado leitor, caso você esteja achando estranho o título do texto, não se espante! Quem conhece a expressão citada tem ideia de qual será o tema do texto de hoje?  Para quem nunca ouviu falar, Memento mori é uma expressão em latim que significa “lembre-se da morte” ou “lembre-se que você é mortal”. Na Roma Antiga, a expressão era dita aos soldados quando estes comemoravam ao regressar de suas batalhas (também é uma saudação utilizada por monges católicos). 

    Outro período em que essa expressão foi muito utilizada foi no Século XIX, mais especificamente na Era Vitoriana (1837-1901), quando o Reino Unido estava sob reinado da Rainha Vitória. Nessa época as pessoas costumavam tirar fotos com pessoas mortas, como se elas ainda estivessem vivas. Servia como uma espécie de registro - (levaram a coisa à sério mesmo) - como uma lembrança da morte, de fato.

     Fonte: Google Imagens

    Maaaaas, não vim aqui para assustar ninguém! Vim para falar  sobre Tanatologia! (Eu não pensei em um jeito melhor de introduzir o assunto se não fosse falando de algo relacionado à morte). A origem da palavra Tanatologia vem do grego Thánatus = morte / nome dado ao deus da morte na mitologia grega, e lógos /lógon / = estudo. 

    A morte, por definição, é complexa. A medicina define de um jeito, a justiça de outro. Para os médicos, a morte é a cessação da vida sem possibilidade de retorno. Para a justiça, perda de direitos, onde a pessoa que outrora existia e possuía seus direitos, não os possui mais, pois já não está viva. 

    Levando em consideração que não há apenas uma única e exclusiva forma de morrer, é preciso saber algumas classificações da morte quanto à sua realidade, a rapidez com que ocorreu e à sua causa.

    Do ponto de vista biológico, a morte não decorre de um fato único, mas sim de vários processos biológicos graduais que resultam na cessação vital. Por isso, quanto à realidade, a morte pode ser classificada como real ou aparente, pois tais fenômenos biológicos podem, aparentemente, levar a crer que o indivíduo está morto, quando na verdade ele ainda está vivo. Hoje tem-se como referência a ausência de atividade cerebral, a famosa morte encefálica. Isso porque não se tem meio nenhum que possa substituir a atividade do nosso cérebro (diferentemente da ventilação mecânica - respiração por aparelhos). 

    Pensando em todos esses pormenores, a legislação prevê um tempo limite para a realização das necrópsias. Temos no Artigo 162 nosso Código de Processo Penal /1941 que as autópsias só serão realizadas pelos menos seis horas depois do óbito (claro que existem exceções, caso tenha curiosidade, dá uma olhadinha depois no CPP).

    A morte aparente pode ter várias causas, como algumas patologias que simulam a morte, medicações que deprimem o sistema nervoso central e outros fatores que podem levar à redução dos batimentos cardíacos, da frequência respiratória e da atividade muscular - estes três últimos constituem a Tríade de Thoinot.

    Em relação à rapidez, a morte pode ser rápida, mais conhecida como morte súbita, é aquela que é inesperada ou pode ser lenta / agônica, quando se leva um tempo de evolução de alguma doença ou trauma até que ocorra o óbito.

    Quanto à causa, a morte pode ser natural, geralmente é algo já esperado, pois na maioria das vezes está relacionada com doenças que vão evoluindo com o passar do tempo. A morte pode ser de causas violentas como suicídio, acidentes, homicídios. Por fim, temos a morte duvidosa. Nesse caso, de acordo com as características pré-mortais e do óbito, não se tem como afirmar se houve de fato uma morte natural sem elementos de violência.

    Agora, o nosso colega médico-legista tem as seguintes hipóteses para o seu diagnóstico final: causa, com certeza, da morte, causa sugestiva da morte, causa compatível com a morte, causa indeterminada da morte e causa violenta da morte. 

    Uma vez que ocorreu a morte, seu diagnóstico pode ser realizado através dos métodos da observação de sinais de cessação da vida ou  abióticos, e da observação dos fenômenos cadavéricos. 

    Te explico! Provar a cessação da vida por meio dos sinais abióticos nada mais é do que avaliar o funcionamento de algum dos nossos sistemas, como por exemplo o sistema circulatório, respiratório, a atividade cerebral, entre outros.

    Indo agora para os fenômenos cadavéricos, estes podem ser imediatos e mediatos. Os imediatos são: parada cardiorespiratória, inconsciência, palidez, imobilidade, dilatação da pupila e ausência do tônus muscular.

    Já os fenômenos mediatos são aqueles consecutivos, vão aparecendo conforme o transcorrer do tempo, são eles a desidratação cadavérica, esfriamento do cadáver (nas primeiras 12 horas, a temperatura diminui cerca de 0,8 a 1ºC por hora, e nas horas seguintes 0,3 a 0,5ºC, podendo atingir a temperatura ambiente em 24h), livores hipostáticos (livor mortis), e rigidez cadavérica (rigor mortis). Só uma ressalva em relação às duas últimas características. Os livores hipostáticos ou livores de hipóstase são manchas arroxeadas que surgem na região de maior declive do cadáver, decorrente do acúmulo de sangue (se o indivíduo caiu de costas e o cadáver foi encontrado naquela mesma posição, os livores hipostáticos estarão nas costas. O mesmo serve para as demais posições. Isso ajuda a perícia a verificar se a posição do cadáver foi alterada). Sobre a rigidez cadavérica, esta começa a se instalar de maneira progressiva - (começando pela mandíbula e finalizando nos membros inferiores) - entre 30 minutos e 6 horas após o óbito.

    Além desses fenômenos, existem os fenômenos transformativos do cadáver. Aí você pode tá se perguntando o porquê do termo transformativo e não destrutivo, já que estamos falando de cadáver. É porque essas transformações podem tanto destruir o cadáver como conservá-lo.

    O primeiro processo destrutivo é a autólise  onde ocorre a autodestruição das células e dos tecidos. Tal processo ocorre sem interferência do meio externo. 

     A putrefação é o segundo processo destrutivo que ocorre em quatro etapas. É um processo lento, ocasionado pela decomposição da matéria orgânica das bactérias e da fauna presente. O odor fétido é decorrente da decomposição das proteínas. Na primeira etapa temos o período cromático que ocorre nas primeiras 18 - 24 horas, durando cerca de 7-12 dias. É onde surgem as manchas esverdeadas (mancha verde abdominal). Em seguida temos o período enfisematoso ou gasoso que inicia da primeira semana e se estende por cerca de 30 dias. Nesse período observa-se uma distensão gasosa, mais evidente no abdome, mas que pode ser observada também na face. O terceiro período é o colitativo, iniciando no primeiro mês, este período pode se estender até por 2 ou 3 anos. É onde ocorre o amolecimento dos tecidos. E por fim, o quarto período que é o de esqueletização, onde os tecidos amolecidos desaparecem expondo o esqueleto.

    Por fim temos a maceração que nada mais é do que um amolecimento dos tecidos quando estes ficam submersos em líquido. Observa-se uma pele esbranquiçada, corrugada onde a epiderme se solta da derme.

    Em relação ao processo de conservação, o mais famoso por ser uma prática milenar  é o da mumificação, podendo levar de 6 meses a 1 ano para finalizar o processo. Nesse caso, o cadáver é colocado em um ambiente bem ventilado, porém  seco, com temperatura acima dos 40º C. Mas existem outros processos de conservação como a saponificação, petrificação e coreificação. 

    Finalizando nossa jornada, é importante ressaltar que todas essas características são de extrema importância para o perito, seja ele criminal, médico-legista ou odontolegista. Tudo está trabalhando em prol da justiça. Não se trata apenas do exame necroscópico. Existem fatores externos que contribuem para a elucidação de um caso, por exemplo, mas que foi alterado e dificultou o trabalho do perito.  Por isso que em cenas de crime a preservação do local é tão importante.

    Muita informação, né?

    Sei que a abordagem tem cunho científico, mas deixo aqui minha mensagem para você: Memento mori (postei e saí correndo).

    Até a próxima, galera!

    Você Precisa saber:

    • Só o médico pode emitir a declaração de óbito (parece besteira, mas não é hein?)

    • Os cadáveres enterrados têm sua putrefação retardada em até 8x do que aqueles que ficam expostos (a depender das condições climáticas, obviamente).

    Isis Teixeira


    REFERÊNCIAS

    Brasil, 2009. Ministério da Saúde. A declaração de Óbito: documento necessário e importante.

    https://www.google.com/search?q=era+vitoriana+post+mortem&sxsrf=ALeKk01Czt-lMGSwRQaa8u4cQJfVYZEj-Q:1615593722597&source=lnms&tbm=isch#imgrc=Ltlrb4WB3xMeJM


    VANRELL, Jorge Paulete. Odontologia Legal E Antropologia Forense . Grupo Gen-Guanabara Koogan, 2020.


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    ESTUDO DAS MORDEDURAS

    Um comentário

                Nos mais diversos filmes de vampiros podemos observar a marquinha peculiar que fica no pescoço daquele que é atacado por um discípulo do Conde Drácula – uma mordida nada humana, diga-se de passagem. E aí vem a pergunta: “Será que existe a possibilidade de saber quem deixou aquela marca a partir da análise dos elementos dentários?”.

    Bem amigos, a ciência não traz estudos sobre vampiros, mas o que eu posso lhe dizer é que existe a possibilidade de se realizar uma análise da mordedura deixada por humanos ou por animais, seja esta produzida na pele de uma pessoa viva, morta (isso mesmo, no cadáver) ou objetos inanimados de consistência relativamente mole. No caso dos humanos, a mordedura é a impressão que pode ser deixada não só pelos dentes, mas também por próteses, aparelhos ortodônticos, etc).


                O que a literatura nos traz sobre essa análise nos diz que é possível realizar o estudo das mordeduras porque os elementos dentários possuem características individualizadoras incontroversas. Como exemplo de características temos o tamanho, forma, posição na arcada, características individualizadoras como apinhamento, ausência de elementos ou até mesmo a presença de elementos extranumerários, uso de aparelho ortodôntico, próteses, desgastes ou quaisquer outras características.

                Antes de adentrar na parte técnica da coisa, preciso falar que, diante de uma marca de mordida, antes de mais nada, se faz necessária uma inspeção visual para distinguir se aquela lesão foi produzida por um animal ou por um humano. E isso é possível porque existem características que diferem a mordedura humana daquela produzida por um animal.

                Agora vou listar aqui algumas das características que são produzidas pela mordida humana pra você conseguir entender um pouco a diferença entre elas no final. Primeiramente, o formato da marca da mordida humana tende a ser circular / elíptica – arco superior + arco inferior. Para a análise dos demais pontos, tenta imaginar a descrição de fora para dentro, ok? Se tratando da pele humana, no ato de morder, quando um ser humano apreende a superfície com os dentes, os lábios também exercem certa pressão tecidual, provocando uma equimose difusa ao redor daquelas deixadas pelos dentes (como se fosse uma delimitação da mordedura, coisa que não acontece no caso dos animais). Os elementos anteriores – incisivos e caninos - tendem a deixar marcas de escoriações ou até mesmo lesões cortocontusas, a depender da força exercida pelo agente. Outro ponto é  a equimose de sucção – Sugilação – provocada pela pressão negativa (o famoso vácuo) produzida pelo agente ou pela ação contundente da própria língua.

                Quando a lesão é provocada por um animal, geralmente tem-se laceração do tecido, isso porque o animal tende a abocanhar a vítima e chacoalhar a cabeça ferozmente. Além disso, a lesão tem um formato de “V” – o que coincide com o formato da arcada dos animais -  não existe a tal equimose de sucção, as lesões são mais profundas – perfurocontusas, nos termos técnicos - (tem um aspecto de furo mesmo) devido à anatomia dos elementos dentários, sobretudo à dos caninos, e outro ponto a ser observado é o espaçamento (diastema) que há entre um dente e outro.

                                        


                Do ponto de vista forense, a identificação dessas marcas permite elencar alguns pontos importantes como a violência da agressão; nos casos onde há mais de uma mordedura é possível analisar a procedência e a sequência na produção dessas lesões; verificar se a produção foi feita ainda em vida ou após a morte do indivíduo; e até mesmo a data aproximada em que a marca foi produzida observando o tempo transcorrido da marca até o momento do exame pericial.

                O ponta pé inicial da análise é examinar a lesão. Como falei no início, verificar se foi provocada por animal ou por humano, verificar a quantidade, observar a reação vital para determinar se foi provocada em vida ou não, etc.

                O segundo passo é o registro fotográfico, pois é a melhor forma de documentar, tendo em vista que observar não é registrar, e depois não tem com recorrer novamente à imagem da lesão. Para a fotografia é importante manter o paralelismo entre a câmera e a marca para evitar distorções, utilizar uma escala ou régua milimetrada (observem na imagem o exemplo de uma régua comumente utilizada  da American Board of Forensic Odontology – ABFO), realizar tomadas na luz natura, com flash, preto e branco, e se possível, de acordo com a literatura, com filme infravermelho. Recomenda-se também fazer os registros em dias sucessivos, entre o 3ª e 5ª dia, pois a medida em que a equimose vai desaparecendo, fica mais fácil de observar o formato do arco.

                E o terceiro ponto é a coleta de saliva. Isso nos traz um ponto importante para refletirmos aqui. Estudos apontam que 65% das vítimas de agressão por mordida são do sexo feminino e 35% do sexo masculino. Além disso, as pesquisas revelam a relação entre essas lesões e agressão sexual. Nesse contexto, nem sempre é possível realizar a coleta de saliva porque a tendência da vítima é se lavar, se limpar, retirando todo o material biológico do agressor da sua pele (lembrando que o ato de morder também pode ser uma forma de defesa da própria vítima contra seu agressor). Porém, quando possível, a coleta é feita com o auxílio de 2 swabs (uma espécie maior de cotonete). Um swab umedecido com água destilada é passado em toda a região da lesão e depois deixa-se que ele seque ao ar. O segundo swab é passado na mesma região onde foi passado o primeiro. Ambos são acondicionados em envelopes de papel, enviados ao laboratório juntamente com a amostra de sangue da vítima.

    E pra que serve a saliva?

    Com a saliva podemos obter pistas que nos levem ao suposto agressor. Dá pra se obter o grupo sanguíneo, identificar o DNA e também pesquisar uma enzima que existe na nossa saliva chamada Amilase, pra se tirar a “prova dos 9” caso exista dúvida se aquilo é mesmo uma mordida ou não.

    Outra coisa que pode ser feita é a moldagem da mordida para que seja feito o confronto com a arcada do suspeito. Essa moldagem é feita com materiais de alta precisão, e dá pra fazer no vivo, em objetos e no cadáver. No caso do suspeito, precisa-se coletar algumas amostras como o registro da mordida em cera, coleta da saliva e de células da mucosa, moldagem dos arcos superior e inferior e a coleta de sangue. Por fim vem a comparação da marca que foi deixada na vítima com as moldagens que foram obtidas do suspeito.

    As análises das mordeduras são morfológica e métrica. Verifica-se a forma da lesão, medidas da largura e comprimento de cada dente, distância entre os elementos, tamanho geral do arco. Ah, o perito, quando capacitado, pode sim utilizar softwares para auxiliar na análise métrica.

    Lembrando que nem tudo é um mar de rosas, né? Existem algumas problemáticas no campo do estudo das mordeduras. Primeiro que as marcas podem passar desapercebidas no exame perinecroscópico (pasmem). Segundo que a pele não é lá essas coisas pra poder conservar uma marca, muito menos pra coletá-las. Enfim, os peritos que...LUTEM!

    TODO CUIDADO É POUCO! Desde a análise morfológica. Os vestígios são fáceis de se perder. Outro quesito importantíssimo é a emissão de um laudo pericial. Porque, pensa comigo, um juiz, com aquele laudo na mão, vai atribuir juízo de valor! Alguma pessoa pode ser incriminada por algo que não fez ou inocentada por algo que cometeu. Entende a gravidade da coisa?

    Indo pra o final do nosso tema, resolvi trazer uma problemática. A literatura diz ser impossível o fato de que dois indivíduos tenham dentaduras idênticas. Outras pesquisas trazem dúvida sobre o requisito biológico da unicidade da arcada dentária humana (se você não se lembra dos requisitos biológicos e técnicos, sugiro que releia o texto de Antropologia Forense que temos aqui no nosso Blog). Então eu resolvi colocar uma pulga atrás da sua orelha, meu caro leitor. Vamos de tendência! Tratamentos ortodônticos, lentes de contato dentais, facetas laminadas, protocolos de implante... como será que fica a vida do Perito Odontolegista para analisar uma mordedura nessas condições? Será que em um futuro, nem tão distante assim, teremos ainda dentes com “características individualizadoras incontroversas”?

    Deixo essa reflexão pra vocês.

                Você precisa saber:

    - A marca dos caninos provocadas pela mordida de uma criança é MENOR que 3cm! A de um adulto varia de 2,5 – 4,5 cm.

    - O modus operandi do famoso “Maníaco do Parque” incluía morder suas vítimas. O confronto das arcadas foi realizado a partir modelo obtido das mordeduras encontradas nas vítimas com o sorriso do agressor obtido através de um vídeo dele patinando - o mesmo se encontrava foragido. Galerinha, tem matéria da investigação disponível na 1ª Temporada da série Investigação Criminal na Amazon Vídeo!



    Até a próxima!

    Isis Teixeira


    REFERÊNCIAS:

    DARUGE, Eduardo. Tratado de odontologia legal e deontologia. Grupo Gen-Livraria Santos Editora, 2017.

    FRANCO, A. Unique or not unique? That is the question!–opinion article on a bitemark scope. RBOL-Revista Brasileira de Odontologia Legal, v. 2, n. 2, 2015.

    VANRELL J. P. Odontologia Legal e Antropologia Forense. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2019. Cap.10, p.66 - 69

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    Fotografia forense

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    Você conhece essa imagem né?

    Há quem diga que essa é a fotografia mais conhecida do mundo (apesar de quase ninguém sequer saber que ela é real!). Essa vista é originária de uma região rica na produção de vinho na California, o Vale de Napa. Inclusive, quando eu usava o Windows XP tinha frequentemente a sensação de conhecer esse local. Isso é algo passível de acontecer quando estamos diante de uma imagem com enquadramento perfeito. Nesses casos, a fotografia passa a ser uma espécie de janela, quase um passaporte para acessar aquele ambiente registrado. Mas esse sentimento de familiaridade gerado nas pessoas que enxergam uma fotografia, é um resultado que requer muito estudo e habilidade.

    Com certeza você já esteve em um ambiente ou evento em que foi fotografado, no outro dia foi olhar a foto e ficou com a sensação que aquela foto não está representando bem o ocorrido… sejam sinceros! As vezes é por conta de uma foto mais escura em um ambiente com tanta iluminação, ou a imagem de um lindo vestido azul que saiu esverdeado, e até mesmo alguém com olhos claros que saiu avermelhado.

    Pouca gente imagina, mas uma das funções mais importantes do perito criminal é saber fotografar a cena do crime. Analogamente, os peritos de cada área específica (medicina, odontologia, química, etc) também são cobrados dessa habilidade para a construção dos laudos. E é justamente aqui que vem à tona a capacidade de mostrar fielmente o ambiente de algum sinistro ocorrido, uma lesão traumatológica ou uma ossada com detalhes determinantes para identificação.

    Engana-se também quem acha que um celular com câmera de 18Mpx vai dar conta de registrar qualquer perícia. Na ciência forense, a câmera fotográfica profissional é uma ferramenta de trabalho tão importante quanto um revelador de impressões digitais (quem pretende a carreira, é bom começar a juntar dinheiro se quiser ter algo de qualidade rsrs).

    Mas calma, o esforço financeiro é um dos últimos a ser empenhado, antes disso é importante sentar o bumbum na cadeira e estudar minimamente sobre:

    • Lentes

    • Flash

    • Iluminação

    • Enquadramento

    • Foco

    • Velocidade do diafragma

    • Sensibilidade ISO

    ..

    Anota aí que lá vai uma dica inédita!

    ..

    “Tão importante quanto estudar, é praticar”

    ..

    Mas… Voltando a realidade da fotografia mais acessível, todo mundo que tem um smartphone, obrigatoriamente, têm uma selfie. Somente no instagram, são 500 milhões de usuários ativos diariamente, já imaginou a quantidade de selfie postada por minuto no mundo? Aliás! Já imaginou a quantidade de selfies tiradas antes de escolher qual vai ser postada (diariamente)?

    Pois é, esse é um ponto que vem a somar exponencialmente na perícia forense, principalmente para a Odontologia legal. Pois nem sempre é possível obter uma imagem oficial (atualizada) de uma pessoa antes da morte ou desaparecimento, e cada dia mais estão sendo aproveitadas selfies para análise pericial. Nos casos de desaparecimento, a análise fotoantropométrica pode gerar como resultado a previsão de como a pessoa estaria hoje em dia, a partir de medidas e expressões faciais da idade. Caso exista a suspeita de morte, ainda é possível comparar a linha do sorriso registrada nas selfies do desaparecido, com a de crânios encontrados e encaminhados aos Institutos de Polícia Científica. O crescente aumento na qualidade das câmeras de smartphones também possui contribuição nesse processo.

    Portanto, antes de julgar desnecessário registrar um momento ou sorriso em ocasião especial, esqueça qualquer problema, viva e guarde aquele tempo! Lembre-se que ele nunca mais voltará ou será o mesmo!

    “Faça valer a pena” - Violonista do filme Titanic


    Johnys Berton Medeiros da Nóbrega


    Referências:

    DARUGE, E. Tratado de odontologia legal e deontologia. 1 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2017. p. 524 - 550. VANRELL, Jorge Paulete. Odontologia Legal E Antropologia Forense . Grupo Gen-Guanabara Koogan, 2000. https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjwXvMl9k4lPdmF2LsHU-Ol6jx-15SFffJqHo6638AUsHJNZxKEVSp8YPFxjakFtVPmbqVqTDZ5fa30x4tgUJuiSGNj0CfkL5PxaV44T7iHvMvV17ABhkubItsD-ttoR_x9jGJpeXed5zQ/s1600/windows_xp_bliss-wide.jpg https://i.pinimg.com/originals/71/0d/db/710ddb3fd784c3a6849b66d34200381e.jpg https://blog.emania.com.br/8-curiosidades-da-fotografia-que-voce-precisa-conhecer/ https://amenteemaravilhosa.com.br/wp-content/uploads/2018/08/mulher-sorrindo-mais.jpg


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    Antropologia Forense

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    Ainda passeando pela Antropologia Forense e pegando gancho no nosso último texto, que falamos sobre a estimativa de sexo e sua aplicação no contexto atual (inclusive, se você ainda não leu, vai lá e confere!), outro fator identificador que é possível de se obter graças à análise dos nossos ossos, e dos nossos dentes, é a nossa altura. Portanto, seguiremos conversando sobre as estimativas!

    No vivo, a altura é medida com o auxílio de régua graduada e é determinada pela distância do ponto mais alto da cabeça ao solo, estando o indivíduo em pé, descalço e orientado pelo plano de Frankfurt. No cadáver, em decúbito dorsal, mede-se do ponto mais alto da cabeça à face inferior do calcanhar. Até aí tudo bem, o problema é quando os peritos estão diante de ossadas, completas ou não, sem qualquer informação sobre quem é o examinado, ou examinada, e isso é comum na rotina dos institutos oficiais de perícia.

    Buscar meios para estimar a altura do ser humano é um objetivo que vem desde muuuito tempo. Vocês já devem ter visto, ou ouvido falar, desse moço aí da figura abaixo, não é?

    Então, esse é o Homem Vitruviano, um desenho do século XV, de Leonardo da Vinci, inspirado na obra do arquiteto romano Marco Vitrúvio. O Homem Vitruviano retrata as proporções perfeitas (no que diz respeito a padrões matemáticos) da figura masculina e seu conceito é considerado modelo da proporção do corpo humano. Alguns deles são:

    1.    A altura do homem corresponde a quatro antebraços;

    2.    A longitude dos braços estendidos de um homem é igual à altura dele;

    3.    A largura máxima dos ombros é igual a 1/4 da altura de um homem;

    4.    O comprimento da mão é 1/10 da altura de um homem;

    … E segue, as descrições são diversas!

                Porém, a estatura de um indivíduo adulto é determinada por vários fatores, uns inerentes a ele - como sexo, herança genética, idade - e outros que correspondem a influências externas, como nutrição, horas de sono, clima, estímulos durante a fase de crescimento etc. Por isso, estimar a estatura de alguém quando este alguém “não está completo” é tarefa que mais difícil do que parece, tratando-se de uma ossada é preciso levar em consideração que ali não estão as partes moles nem os discos intervertebrais, assim, o trabalho vai além de colocar os ossos no lugar e montar o “quebra-cabeça” do corpo humano.

                É por isso que existem, descritos na literatura, métodos científicos para estimativa de altura e a escolha de qual aplicar vai depender do material que se tem para exame. Estando diante de ossada incompleta, ou mesmo somente do crânio, os dentes podem ser fonte de muita informação. Lembram do nosso texto sobre antropologia forense (dois posts atrás)? Lá falamos sobre eles serem mais resistentes à traumas, por estarem protegidos dentro da cavidade bucal, e por isso é comum que estejam presentes e disponíveis para análise.

                Carrea, em 1920, conseguiu estabelecer relação entre medidas dentárias, as quais ele deu o nome de corda e arco, e a estatura de um indivíduo, para isso ele considerou as distâncias referentes à largura de incisivos centrais, laterais e caninos inferiores, sua fórmula resulta em uma estatura mínima e máxima, a partir disso estima-se que a estatura real do examinado esteja entre elas.

                Porém (para cada solução, outro problema), é possível que o perito disponha do crânio, mas não da mandíbula, por este ser um osso articulado é comum que a ação da fauna local “suma” com metade das nossas possibilidades.

                (Para cada problema, outra solução) Em 2011, a fim de ampliar as possibilidades do uso do método de Carrea, Lima (também conhecida como Profª Laíse, coordenadora desta Liga 💓, e que também tem texto aqui no blog sobre a experiência com Antropologia fora do Brasil)  e Daruge, propuseram uma adaptação ao método para estimativa da altura a partir dos incisivos centrais, laterais e caninos superiores, dentes da maxila, que por sua vez é presa à base do crânio e, portanto, há maior probabilidade que estejam presentes (que grande sacada, não é, meus amigos?)

                O método de Carrea e o Carrea modificado por Lima são achados importantes da antropologia, mas ambos apresentam limitações, entre as quais pode-se citar o intervalo entre as estimativas mínimas e máximas, que são bastante amplos, podendo dificultar a exclusão de uma identidade ou outra na busca da identificação do sujeito.

    Além disso, dificilmente as medidas lineares poderão abranger casos mais específicos, como os de indivíduos que apresentem alteração de crescimento e estatura fora do padrão. Ambos os métodos devem ser utilizados como alternativas, mas na existência de ossos longos disponíveis, a análise sobre estes trarão resultados mais confiáveis a respeito da estimativa de altura.

     

    Tainá Falcão

              

    Referências:

    DARUGE, E. Tratado de odontologia legal e deontologia . 1 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2017. p. 524 - 550.

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    Estimativa do Sexo e os contrastes atuais

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    Estimativa do Sexo e os contrastes atuais

          Recentemente falamos sobre a Antropologia Forense. Mesmo sendo um meio secundário de identificação, não podendo, portanto, estabelecer uma identidade, auxilia na estimativa de sexo, idade, altura e ancestralidade, facilitando o caminho para os métodos de identificação primários. Hoje nós vamos falar sobre estimativa do sexo!



         Se você estiver tão animado(a) quanto a Bailey, acho melhor eu começar... Através de aspectos morfológicos e morfométricos do esqueleto é possível diagnosticar o sexo com segurança. Como muitos de vocês já imaginam (ou já sabem mesmo), a pelve ou bacia representa o segmento do esqueleto com maior dimorfismo sexual, ou seja, diferença entre os sexos no que tange as características não sexuais. Em muitos casos, especialmente em desastres em massa, a pelve pode não estar presente, fazendo-se necessário utilizar apenas o crânio e a mandíbula, que permitem um diagnóstico diferencial do sexo em grande parte dos casos. By the way, não é a análise de uma característica pontual que permite a estimativa do sexo não, tá!? É preciso a análise de um conjunto de características para termos a estimativa mais confiável possível. Agora vamos falar um pouco sobre esportes, mas se você não curte muito, fique por aqui que já, já eu volto a falar sobre estimativa do sexo.


      Tiffany Abreu. Tia Thompson. Mack Beggs. O que têm em comum? São atletas transgêneros. O Comitê Olímpico Internacional (COI), em 2015, estabeleceu regras para a inclusão destes atletas. Para mulheres transgêneros, as regras exigem o controle dos níveis de testosterona sanguínea abaixo de 10 nmol/L, por no mínimo, um ano. Já para os homens transgêneros, não existe impedimentos, acreditando-se que tais não adquirem vantagens físicas expressivas. Sabendo que os níveis do hormônio testosterona que as mulheres normalmente apresentam gira em torno de 2 a 3 nmol/L, você deve se perguntar se o nível máximo de 10 nmol/L ainda não conferiria vantagens físicas, não é? Sabendo da possibilidade do homem possuir mais receptores para testosterona, podendo até mesmo apresentar um organismo mais responsivo a ela, suas dúvidas com certeza aumentaram. As regras para as Olimpíadas de Tóquio permanecem incertas.

                                                                Tiffany Abreu

        Uma certeza que podemos ter é de que as publicações científicas ainda são escassas acerca dos transgêneros, sendo necessário conclusões mais sólidas para o meio esportivo. No Brasil, o panorama de produção científica sobre a transgeneridade tem se mostrado crescente, em comparação com épocas anteriores, mas ainda é escasso no que se refere as transformações morfológicas em decorrência da mudança de gênero.

        Você deve estar se perguntando onde a Antropologia Forense e a estimativa do sexo entram nisso tudo, não é? Pois bem. Como já mencionado, o esqueleto possui segmentos específicos muito úteis para a estimativa do sexo. Onde a transgeneridade entra nisso tudo? Faz-nos pensar até que ponto alterações morfológicas provenientes da mudança de gênero podem influenciar na estimativa do sexo. É importante deixar claro que a mudança de gênero em adultos, favorecida pela suplementação ou supressão hormonal, não interfere de maneira expressiva no sistema musculoesquelético, ou seja, ossos com características femininas não podem assumir uma conformação masculina apenas com suplementação hormonal na fase adulta, tendo em vista que estas alterações só ocorrem de maneira expressiva na puberdade. Até existem estudos que comprovam a redução da força muscular e da densidade óssea em mulheres transgêneros que passaram por supressão hormonal, no que se refere a performance física. Mas ainda persiste a dúvida do quanto, de fato, isto pode interferir na realidade da Antropologia Forense nos processos de identificação humana.

         Por que eu falei disso tudo, então, já que os efeitos hormonais no que tange as alterações morfológicas na fase adulta são mínimos? Porque a mudança de gênero tem sido uma realidade bastante presente entre crianças e adolescentes. Compreendendo que seu sistema musculoesquelético ainda está em desenvolvimento, começamos a pensar o quanto o aporte de hormônios pode interferir nisso tudo.



        Vamos falar agora sobre o perfil biológico estabelecido para ambos os sexos. Eu e você conhecemos características morfológicas que são atribuídas aos homens, assim como as atribuídas às mulheres. Você consegue pensar em pessoas que fujam a este padrão? Posso citar Nina Braga Nunes, irmã de Gabriel Braga Nunes. Um relato de Gabriel acerca de uma peça em que ele interpretava uma mulher nos diz que bastava ele colocar uma peruca que ficava parecido com a irmã. Eles sempre se acharam parecidos. Este é um bom exemplo ao mostrar uma mulher, que por parecer com o seu irmão, apresenta traços masculinos. A comparação contrária também é válida? Deixo esta análise com você!


                                                     Nina e Gabriel Braga Nunes

        Devemos ainda considerar que a atividade laboral de homens e mulheres mudaram muito com o decorrer do tempo. Muitos homens passaram a realizar trabalhos que não exigem necessariamente força braçal, enquanto as mulheres começaram a assumir jornadas até então não enfrentadas. Quanto tempo você acha que será necessário para que as mudanças morfológicas decorrentes disto possam ser notadas e passem a interferir no serviço da Antropologia Forense? Uma coisa é certa: a ciência não foi feita para responder questões que estão fora da sua esfera de competência. Isso pode acabar levando-a ao descrédito. Mas outro fato é mais certo ainda: exigimos muito pouco dela e devemos acreditar que ela ainda tem muito a nos oferecer.

    Tifany Shela Albuquerque Borba de Andrade

     


    REFERÊNCIAS 

    VANRELL, J. P. Odontologia Legal e Antropologia Forense. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan; 2019.

    RODRIGUES, N. G; SILVA, C. H; ARAUJO, I. S. Visibilidade de pessoas trans na produção científica brasileira. Reciis – Rev Eletron Comun Inf Inov Saúde. Rio de Janeiro, v. 13, n.3, p. 658 – 670, 2019.

    McGRATH, A. Surpreendido pelo sentido. São Paulo: Hagnos, 2015. p. 12.

    PROTA, L. Transgêneros: a Ciência Por Trás da Determinação do Sexo no Esporte. O Cientista do Esporte, 2018. Disponível em: https://globoesporte.globo.com/sportv/blogs/o-cientista-do-esporte/post/a-ciencia-por-tras-da-determinacao-do-sexo-no-esporte-parte-2.ghtml.

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